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Eu fui desinstalada da minha condição natural de mãe

Uma vida autêntica de dor e de amor

*Renata Scarpino* é casada, mãe de três filhos – Maitê, Luca e Lis, – sendo
a caçula, contemplada com um diferencial. Ribeirão-pretana, licenciada em
Letras e educadora no Ensino Fundamental. Maitê, a filha caçula e irmã
gêmea do Luca tem uma doença genética, degenerativa e rara, diagnosticada
há quase um ano. Renata afirma que esse diagnóstico promoveu nela, um
renascimento emocional, conduzindo-a à realização de trabalhos literários
com a temática de humanização e espiritualidade no processo de inclusão.
@renata.scarpino

Eu fui desinstalada da minha condição natural de mãe. Fui retirada do
estado pleno e típico da maternidade. Aquele estado inalterado, de amar até
doer, de viver o cansaço, o desgaste físico, as noites de quase 40°de
febre, os medos de nossos filhos sofrerem ou a saudade que sentimos quando
nos separamos deles. Os problemas de apascentar os ciúmes de irmãos, a dor
do parto, a difícil missão de decretar decisões.
Maternidade, por mais desafiadora que seja, nos coloca em uma condição
humana sagrada, de mulheres que crescem diariamente, imersas no amor por
seus filhos. Todas somos vencedoras nessa luta. Do amor que dói. E da dor
que vale a pena ser sentida. Liz e Luca me fazem essa mãe. Meus dois
filhos, cuja anatomia humana me parecia “perfeita”.

Mas Deus me chamou para uma missão mais incitadora com a Maitê, me
apartando dessa dor maternal, que se acalenta nos primeiros passos que o
filho dá ou nas primeiras palavras que ressoam de sua boca. E me apresentou
uma dor sem acalento humano. Uma ferida. Mas um ferimento frutuoso, um
sofrimento curativo. Pode ser que essa linguagem não participe de nossas
vidas, mas a partir do momento que se conhece a possibilidade mais próxima
da morte de um filho, a vida ganha novo sentido. A anatomia perfeita deixa
de contar com o engano da perfeição, revelando uma graça de ser imperfeito,
de trazer nos genes, um defeito irreparável e tornar essa realidade,
santificadora.

É a condição sem cura de minha filha atípica, que a constitui um ser de
luz, divino, raro, sem contato com as máculas da vida, sem consciência das
malquerenças mundanas, a condição que a torna irretocável. Ali, naquela
existência tão incomum diante de mim, existência esta, trazida de dentro do
meu ser, compreendi que a anatomia extraordinária pertence à Maitê. Ela
nunca precisará corrigir erros pois sequer saberá o que é errar, fenômeno
natural de todos nós. Já a Liz e o Luca, terão de conviver com a
inevitabilidade de reparar os próprios desacertos que cometerem ao longo da
imperfeição da vida.

Eu conheci naquele precioso momento de chegada da Maitê, uma nova
sacralidade dentro da maternidade.  Numa fala que toda mãe conhece bem, o
prognóstico habitual – uma febre de madrugada, joelhos machucados, pernas
estampadas com band-aid, expectativas sobre os primeiros passos, as
primeiras palavras, os primeiros tombos, o primeiro convite de aniversário,
o primeiro “eu te amo, mamãe”, nada disso faz parte do meu exercício
maternal com a Maitê. Não de um modo convencional.

Minhas novas preocupações hoje, que são as preocupações de outras muitas
mães cujos filhos têm doenças raras, concentram-se todas no tempo que terei
ao lado de minha filha caçula; se ela viverá o suficiente para completar
dez velas no bolo…

Ao mesmo tempo que luto para isso, meus pés fincam no solo áspero que me
sustenta. Mães raras vivem conscientes dos cristais que são seus anjos,
reconhecem tamanha fragilidade. Sabem que há uma expectativa em torno de
suas vidas, fadada à celeridade do fim.   E me dói sim, imaginar que a
morte possa ser adjunto adnominal do núcleo do sujeito, a vida. Que mãe não
sofreria com um prognóstico de vida tão comprometedor de um filho?

Mas eu não posso imaginar sofrer sem antes, amar.

Ter a Maitê, foi e é meu maior privilégio. Através dela, me encontro todos
os dias, com o milagre que é viver. Viver uma vida inteira, maciça,
íntegra, com amor, mas também com a dor, que não se dissocia de uma vida
autêntica. Sinto que Deus me agraciou nesse sentido, de me fazer um ser
integral. Integral como mãe da Liz, do Luca e da Maitê. Integral como
mulher, amiga, esposa, filha, pessoa, alguém tão minúscula e falha, mas com
todos os pedaços por inteiro, tentando escorar um amor maior que eu, que me
faz movimento frente à vida. A doença sem cura de minha Maitê, trouxe a
cura da minha alma. Não me mantém inerte, à espera de maus dias. Significa
para mim, uma cura que não ocorre apenas no meu interior. Mas no íntimo de
cada pessoa que está ao meu lado, de cada um que vive comigo a minha luta,
a nossa luta.

Um diagnóstico sem “solução”, pode ser exatamente a solução para uma vida
integralmente feliz. Revejo o sentido que eu dava ao sofrimento antes e a
confusão que existia acerca dele. Um medo de sofrer que minava a minha
coragem de enfrentar a dor. Maitê me fortificou desse desbrio. Trouxe-me a
beleza de viver de verdade, viver meu calvário humano, meu enfrentamento
contra a morte de minha filha. Vivê-lo com empenho, alegria, gratidão.

O entendimento da vida e da espiritualidade, para muitas de nós mães, que
recebemos diagnósticos tão angustiantes, passa por um processo terapêutico,
que nos possibilita amar ainda mais a Deus. Deus tão compassivo e amoroso,
porém, tão mal interpretado como sendo vingativo, maléfico, que nos manda
sofrimentos e doenças sem curas. Muitas vezes, Deus se faz inexistente na
compreensão amargurada daqueles que se sentem desabitados, abandonados em
uma conjuntura de tanta dor.

A dor acompanha o amor desde que nascemos. A verdade da vida nasce no
parto, dentro daquele choro intenso do nascituro. Um choro que grita: “-
Dói! Dói sair de dentro do amor uterino de minha mãe e chegar até aqui,
nessa atmosfera fria, estrondosa, caótica”.

E ao passar do tempo, o choro vai sabendo se curar através do amor. É isso
que chamo de verdade. Deus é o Pai que não nos priva de uma vida humana
verdadeira, a qual se rasga e se costura no dia a dia; ele não deixou nem
mesmo seu filho Jesus isento de viver um calvário humano.

Todos temos os nossos. Uns maiores, outros menores. Reações distintas ao
lidarmos com o que nos dói. Mas se passarmos por essa chance sem que
saibamos recolher um crescimento humano e espiritual dos nossos calvários,
não faz sentido receber uma vida legítima. Assim, estaremos designados a
viver uma mentira.

 Eu me sinto em estado de graça: tenho uma vida autêntica no incurável,
concomitante ao sagrado que habita em mim. E essa sacralidade que me dá
alento, também me aciona nessa partilha da minha intimidade com o mundo,
com você. Anseio que os calvários humanos possam ficar mais leves e
miraculosos a partir da consciência de que dor e amor caminham juntos. Em
uma ambiência feliz cabem os dois, sempre triunfando, aquele que nos
possibilita sorrir quando há motivos para chorar.

Claro, o amor!

Publicado em: 04/07/19


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