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  • Brasil em crise: a mentira e a corrupção

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    O direito a mentir e a felicidade

    Por Samuel Sabino

    Todo mundo mente. Algumas pessoas chegam a achar que a mentira é necessária
    e sustenta grande parte do convívio social. Normalmente apenas se diria que
    a mentira é má ou errada, mas o problema é que ela existe em situações
    ambíguas; onde há benefícios e malefícios, seja para o indivíduo mentiroso
    ou para o grupo enganado. A felicidade pode advir de uma mentira. Nada é
    preto no branco e é ai que entra a discussão ética, pois todos também querem
    ser felizes.

    Não é esse o fim último da humanidade, buscar a felicidade? Isso levanta
    dúvidas difíceis de responder como: mentir é certo ou errado? Quando nos
    voltamos aos líderes, sejam eles de governos, de empresas, de grupos
    sociais, ela toma proporções ainda mais complexas, podendo constituir crime
    ou mesmo sustentar as crenças de muitos.

    Em alguns casos específicos a mentira pode até mesmo ser aceita pela
    perspectiva ética. Obviamente quando existir com a finalidade de manter a
    dignidade, não ferindo a lei ou visando proteger a vida, por exemplo. Se uma
    pessoa chega à minha casa, fugindo de um criminoso que quer lhe fazer mal e
    eu a escondo, quando questionado pelo criminoso se ela estaria lá,
    especificamente nesse caso eu mentiria. A maioria das pessoas mentiriam.

    Não é que haja mentiras boas ou mentiras más, exatamente. Existem
    consequências da mentira, e elas são boas ou más para um determinado número
    de pessoas e valores. Nesse caso, o valor é a vida, como valor máximo, e a
    consequência é o bem estar e a dignidade da pessoa escondida, aquilo que
    realmente se espera da vida. Percebe-se que em casos específicos, em prol da
    dignidade, a mentira é necessária.

    Quando jogamos a mentira para a análise do olhar ético, ela assume essa
    dualidade. Se ela tem como fim último apenas vantagens pessoais ou imediatas
    e ainda fere a lei, ai sim, podemos julgá-la como antiética, potencialmente
    ilegal e consequentemente uma ação negativa, ou propriamente ruim.

    A mentira nesses termos pode levar a muitas consequências negativas para a
    sociedade, já que geralmente ela não envolve apenas uma ou duas pessoas. Ela
    é uma das posturas antiéticas mais comuns. Ela vem do desejo de ter vantagem
    sobre o outro – a tal da ética menos nobre ou que pensa apenas em si mesmo
    ou no menor grupo de pessoas.

    Vivemos em uma sociedade onde a mentira se torna cada vez mais inaceitável,
    considerando, sobretudo, líderes que são responsáveis por guiar o povo ao
    engano. Isso se aplica muito a condição atual da política e sociedade
    brasileira, que enfrenta escândalo após escândalo, investigação após
    investigação. Além de ilegal, a mentira do líder tem consequências
    catastróficas se tornada impune. Uma sociedade em que não se pode confiar
    está fadada ao colapso e isso começa por quem comanda.

    Tome se como exemplo o caso da promessa: se todos mentissem a promessa
    perderia seu valor que, por sua vez, é o que proporciona confiança entre as
    partes. É o que entendemos como o bom e velho acordo entre as condutas. Você
    já parou para pensar se todas as pessoas ao mesmo tempo não confiassem mais
    nos bancos e retirassem simultaneamente os valores depositados em contas?
    Resultado: todos os bancos quebrariam em questão de horas.

    Já na antiguidade, os filósofos gregos tinham como princípio que o ser
    humano era constituído de vícios e virtudes. Os vícios já nasciam com eles,
    enquanto que as virtudes eram ensinadas. Como seres viciosos, o erro, a
    mentira, a conduta inapropriada era algo natural, nos fazendo assim seres
    humanos incompletos; humanos para uma humanidade a se desenvolver.

    Era através do esclarecimento que se aprendia e cultivava a virtude –
    extirpando os vícios quando identificados. Era através da virtude que se
    preservava a dignidade, pessoal e do próximo. Para Kant, filósofo da era
    moderna, isso era resultado de estarmos, como humanos, em uma menoridade
    moral. A maioridade viria com a prática ética. A saída de um estado para
    outro se dava exatamente no sentido de esclarecimento, verdadeira passagem
    para a maioridade.

    Enquanto humanos nossas condutas geralmente se baseiam em dois princípios
    fundamentais de motivação para a conduta: ou agimos por empatia ou por
    respeito ao mero princípio ético. Quando agimos por empatia geralmente algum
    tipo de amor está envolvido e o fazemos por inclinação ao bem estar do
    próximo. Quando fazemos por ética pura, o que está enredado é o pensamento
    racional por onde é possível aplicar a moral pelo respeito ao princípio,
    mesmo que não se ame os envolvidos.

    É a moral quem verdadeiramente sustenta a sociedade. A guia da conduta,
    mesmo quando se faz necessária a mentira, é a moral interiorizada. A
    barbárie se esgueira quando a ética falha ao não ser convidada ao
    protagonismo. É dever de todos meditarem sobre suas mentiras, sobretudo, os
    líderes que carregam vidas de muitos em sua responsabilidade. Para eles é de
    suma importância interiorizar a boa conduta, e do povo não tornar aceitável
    que se minta impunemente. A sociedade depende do peso e análise da ética, ou
    o futuro será a ruína.

    Samuel Sabino é fundador da Éticas Consultoria, Filósofo, Mestre em
    Bioética, e professor na Escola de Gestão da Anhembi Morumbi.

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